RONDÔNIA CRESCE ACIMA DA MÉDIA NACIONAL, MAS DEPENDE DE DUAS CADEIAS PRODUTIVAS, ALERTA ECONOMISTA
Rondônia tem apresentado desempenho econômico superior à média nacional nos últimos anos. Impulsionado pelo agronegócio, o estado mantém crescimento consistente mesmo em cenários de instabilidade nacional. No entanto, essa força esconde uma fragilidade estrutural: a economia ainda depende basicamente de duas cadeias produtivas consolidadas.
A avaliação foi feita pelo economista Silvio Rodrigues Persivo Cunha durante entrevista ao PodRondônia Economia, apresentado pelo jornalista e editor do Valor&MercadoRO, Marcelo Freire.
“Hoje Rondônia só tem duas cadeias produtivas consolidadas: soja e carne.”
A afirmação não diminui a importância do setor produtivo local — ao contrário, evidencia a necessidade de diversificação e consolidação industrial.
O agro sustenta o crescimento
A soja e a pecuária são as principais engrenagens da economia rondoniense. Ambas operam em escala de commodity, com produção padronizada e inserção consolidada no mercado externo.
Esse modelo garante volume, previsibilidade e competitividade.
Além disso, o setor produtivo de Rondônia é reconhecido por inovação e eficiência operacional, mesmo enfrentando desafios logísticos e infraestrutura limitada.
Porém, o excesso de dependência de dois segmentos aumenta a vulnerabilidade do estado a oscilações de preço internacional, câmbio e políticas comerciais externas.
Piscicultura perdeu força
Rondônia já ocupou posição de destaque nacional na produção de tambaqui. Houve período em que o estado figurava entre os principais polos da piscicultura brasileira.
Hoje, o cenário é diferente.
“Já tivemos cerca de 5 mil produtores de tambaqui. Hoje não chega a mil.”
A redução da atividade está ligada à falta de consolidação da cadeia produtiva, assistência técnica insuficiente e limitação industrial.
Produzir não é suficiente. É preciso processar, agregar valor e estruturar mercado.
Sem industrialização e logística eficiente, o setor perde competitividade.
Café e cacau: qualidade reconhecida, escala insuficiente
O estado tem conquistado prêmios nacionais e internacionais com cafés e cacaus de alta qualidade. Entretanto, ainda não atingiu volume padronizado suficiente para competir como grande exportador estruturado.
“Você tem qualidade, mas não tem escala.”
A diferença entre produto premiado e cadeia consolidada está no volume constante, padronização industrial e logística organizada.
Sem isso, o produto sai do estado para ser processado em outras regiões, perdendo parte do valor agregado.
Industrialização é o próximo passo
O grande desafio de Rondônia não está na produção primária, mas na transformação.
A industrialização permite:
- Maior geração de empregos
- Aumento de arrecadação
- Estabilidade econômica
- Redução da dependência de commodities
Sem fechamento da cadeia produtiva, o estado exporta matéria-prima e importa valor agregado.
Crescimento acima da média não elimina riscos
Mesmo crescendo acima da média nacional, Rondônia não está isolada do cenário macroeconômico brasileiro.
Baixo crescimento nacional, instabilidade fiscal e insegurança jurídica afetam investimentos estruturantes no estado.
Além disso, a dependência de recursos federais para grandes obras limita a autonomia de expansão.
O economista destacou que desenvolvimento sustentável exige planejamento estratégico de longo prazo, integração entre produção e indústria e ambiente regulatório favorável.
Planejamento e política pública
Estados que avançaram em desenvolvimento regional estruturaram políticas focadas em:
- Cadeias produtivas completas
- Incentivos industriais com metas claras
- Assistência técnica contínua
- Logística integrada
Rondônia possui potencial, mas precisa transformar força produtiva em estratégia de desenvolvimento.
“Não basta produzir. É preciso fechar a cadeia.”
O futuro da economia rondoniense
O estado tem capital humano empreendedor, solo produtivo, localização estratégica e forte vocação agropecuária.
O desafio agora é evoluir do modelo primário-exportador para um modelo industrial-agrointegrado.
Se conseguir consolidar cadeias como peixe, café e cacau, ampliando escala e agregando valor, Rondônia poderá reduzir vulnerabilidade e ampliar estabilidade econômica.
Caso contrário, continuará dependente do ciclo das commodities.
O crescimento atual é sólido — mas o desenvolvimento de longo prazo exige estratégia.
Fonte: Cacoal Notícias